O cientista brasileiro visível não é o que se comunica — é o que foi procurado

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Apresentei na semana passada, no XXXV Congresso da ALAS, um resultado que me incomoda mais do que me agrada.

A pergunta era simples de enunciar: o que faz um cientista brasileiro de elite se engajar publicamente? Testei isso com um survey de 1.421 bolsistas de produtividade do CNPq e um modelo de regressão que isola variáveis institucionais e comunicacionais — o tipo de exercício que serve para separar disposição pessoal de condição estrutural.

O preditor mais robusto do engajamento público não foi convicção, nem formação, nem apoio institucional. Foi ter sido procurado antes por um jornalista (β = 0,14; p < 0,001). Dito de outro modo: a comunicação pública da ciência, no extrato mais consagrado da ciência brasileira, é sobretudo reativa. Quem já apareceu tende a aparecer de novo; quem nunca foi procurado permanece fora. É um efeito Mateus deslocado da citação para a visibilidade — e ele significa que a autoridade científica que circula na esfera pública não é exercida de forma autônoma pelos cientistas, mas curada por critérios de noticiabilidade que não são deles.

A isso se soma uma segunda camada. As culturas disciplinares organizam quem fala: as Humanidades lideram o debate público com folga (β = 2,63), enquanto as Engenharias (β = −1,65) e as Ciências Exatas (β = −1,23) permanecem significativamente isoladas. Não é uma diferença de talento comunicativo; é uma diferença de como cada campo entende sua própria relação com o público — e, nas áreas tecnológicas, o modelo de déficit segue vivo e bem.

O incômodo está aí. Boa parte da política pública de divulgação científica supõe um cientista que decide comunicar e precisa apenas de formação, tempo e canal. Os dados sugerem um cientista que, na maior parte das vezes, é comunicado — selecionado por uma lógica midiática, por critérios de noticiabilidade que já tem seus favoritos. Se isso for verdade, formar mais divulgadores não redistribui a visibilidade; é preciso também uma gestão da comunidade científica direcionada ao jornalismo.

O resumo completo está na página da apresentação.