A grande área não é mais uma variável de controle
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Estou retomando os dados do meu mestrado — o survey com bolsistas de produtividade do CNPq — para aprofundar o trabalho com análise de classes latentes. O que começou como um exercício técnico virou uma questão conceitual, e é dela que quero falar.
Na análise que publiquei, a grande área do conhecimento entrou no modelo como entrou o sexo, o estágio de carreira ou a região: uma variável independente entre outras, capaz de aumentar ou diminuir a probabilidade de um pesquisador pertencer a um perfil de percepção. É uma escolha defensável e é o que a maior parte da literatura faz.
A reanálise sugere que essa escolha subestima o fenômeno. A área não parece funcionar como um atributo do indivíduo, comparável a ter 45 anos ou trabalhar no Nordeste. Ela parece funcionar como um contexto — um ambiente em que certas maneiras de entender a relação entre ciência e público são mais ou menos correntes, mais ou menos custosas de sustentar. Se isso estiver certo, os respondentes não são unidades independentes: estão aninhados em culturas disciplinares, e a pergunta muda de forma. Não é mais “a área prevê o perfil?”, mas “a distribuição dos perfis se organiza de maneira diferente conforme o contexto disciplinar?”.
A diferença não é sutil no plano estatístico — é a passagem de um modelo de classes latentes com covariáveis para um modelo multinível, com estrutura em dois níveis — e é ainda menos sutil no plano sociológico. Tratar a disciplina como variável independente é dizer que ela caracteriza pessoas. Tratá-la como nível é dizer que ela caracteriza lugares: modos coletivos de conceber o que é comunicar ciência, que os indivíduos encontram já constituídos quando chegam. É uma hipótese bem mais próxima do que a sociologia da ciência afirma sobre culturas epistêmicas — e bem mais exigente de provar.
Ainda estou nessa etapa, e é cedo para dizer o que os dados sustentam. Mas já está claro que a “cultura disciplinar” merece entrar na análise pela porta da frente, e não como mais um controle na tabela de regressão.
